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Nos
quase 500 anos em que o povo negro, e principalmente a etnia yorùbá,
instalou-se no Brasil, criou-se um tecido esgarçado, cheio de buracos
sociais, culturais e principalmente religiosos. Vários problemas,
ainda hoje vigentes, resultaram desta vinda forçada e intempestiva.
Vejamos o lado religioso que é o que mais nos incita a tentar tomar
uma providência imediata.
Toda religião tem como proposta ligar o homem aos Deuses que ele
escolheu como objeto de adoração. Para isso convencionou-se
que a participação do homem no sagrado passa por ritos, dos
simples aos sofisticados, aos quais se deu o nome de sacramentos, tidos
como a benção que torna um ato do quotidiano algo sacralizado,
recebido como oferenda por Deuses e Ancestrais. Não há religião
sem sacramentos. Mas a escravidão, e a consequente imposição
da religião cristã vigente em solo brasileiro sobre os escravos
recém chegados, teve como consequencia a imposição
do sincretismo e a eliminação dos hábitos tradicionais
e religiosos.
Este caldo sincrético deu origem, aqui no Brasil, a uma nova forma
de religiosidade chamada hoje de Candomblé. Que, se privilegia os
Orisa ou outros Deuses trazidos da terra mãe África, descaracterizou-se
ao contato com o catolicismo e perdeu força e poder, juntamente com
os sacramentos que pudessem enfrentar a igreja.
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Mantidas
parcialmente a iniciação e os ritos fúnebres (por vezes
em formas escondidas e restritas a uns poucos privilegiados), quaisquer outros
rituais que se diferenciassem do cristão socialmente aceito, eram demonizados
e imediatamente destruídos, até mesmo pela ajuda da força
policial.
Quem seria ousado o suficiente para, em pleno século
dezenove, batizar uma criança ou realizar um casamento fora dos ensinamentos
da igreja católica?
Se impensável no século passado, repensemos no assunto hoje, no
limiar do século vinte e um, tendo em vista que a liberdade de ação
religiosa está plenamente instalada no Brasil, que o fato de uma religião
não restaurar poderes que lhe foram retirados à força há
centenas de anos atrás é injustificável perante seus devotos.
Não se divide religiosamente a cabeça de um fiel. Não há
explicação lógica e aceitável para o fato de Sacerdotes
afro descendentes enviarem voluntariamente seus devotos às igrejas católicas
afim de que recebam lá os sacramentos "cristãos" do
batismo, do matrimônio, da crisma, das missas, da comunhão e das
cerimônias fúnebres. Com uma agravante que talvez não esteja
sendo levada em conta. A igreja católica, com toda razão, não
aceita esta situação, não deseja compartilhar estes sacramentos
conosco, até porque não fazemos parte de seus rebanhos e de suas
prioridades, a não ser em alguns rituais exóticos realizados por
bispos e padres ditos progressistas ou adeptos da negritude, que resolveram
africanizar suas missas e ornar suas cabeças com filá (chapéu
africano), ao mesmo tempo que tocam tambores e cantam em língua yoruba.
Estamos querendo ensinar o quê a nossos seguidores, a mentira? E a mentira
sacrílega, uma vez que muitos sacerdotes, para que os devotos obtenham
estes sacramentos a eles negados por padres mais rígidos, que não
vêem motivos para misturar água benta e azeite de dendê,
ensinam-nos a mentir, dizerem-se cristãos, renegando assim a crença
ancestral de milhares de anos em Orisa, sua iniciação e sua verdadeira
religião. E para obter tão somente um sacramento de outra crença
que não a sua, só porque é socialmente aceito, religiosamente
correto? E quem determina os parâmetros?
Por que os Sacerdotes de Candomblé não batizam, se na tradição
yorùbá temos o Ikomojade, dia de dar o nome ao recém nascido,
realizado aos sete dias para uma menina, aos nove dias para um menino e aos
oito dias para gêmeos? Por que não casam os jovens casais, se temos
o Igbeyawo, dia de carregar a noiva para dentro da casa do marido, cerimônia
que une duas família ou duas tribos ou etnias diferentes? Por que não
realizar as cerimônias mortuárias do Ajeje ou Axexe , ao invés
de chamar os padres para rezar missas católicas? Por que o iniciando,
finalizados seus ritos de iniciação para o Orisa é obrigado
a assistir a uma missa na igreja mais próxima, receber a hóstia
e ter um transe de Orisa dentro da igreja? De onde vieram estes costumes, e
o mais importante, por quê se mantêm?
Somos nós que somos obsedados pela igreja católica ou somos nós
os obsessores? Cremos que esta ligação já ultrapassou em
dezenas de anos o prazo lógico e aceitável. Água e óleo
não se misturam, depois da mistura feita, a água não serve
para beber, o óleo não serve para fritar. Principalmente se forem
água benta e azeite de dendê.
Cabe aos Sacerdotes, que são formadores de opinião, elos de ligação
entre os homens e os Orisa, verificar que estão traindo sete mil anos
de tradição africana por algumas centenas de anos de tradição
brasileira. Se, há cem anos atrás estes costumes eram caso de
vida ou de morte, de sobrevivência religiosa, hoje esta necessidade não
se faz mais presente. O grito de liberdade contra hábitos rançosos
tem que partir de nós, aqui e agora.
A necessidade de aceitação pela sociedade está fazendo
com que nossa religião esqueça princípios ancestrais, ensinamentos
que regraram a vida de nossos antepassados e fizeram com que sobrevivêssemos
ao exílio e a escravidão. Se não nos lembramos mais como
são os sacramentos, voltemos à terra mãe África,
sempre aberta para todos , para resgatá-los. Se for impossível,
acionemos nossa memória ancestral, muito presente em todos nós.
Pois o que é a "intuição brasileira", senão
a memória ancestral? Ou lembremo-nos de que temos um privilégio
que é dado a poucos, o de conversar com nossos Orisa, falar pessoalmente
com Deuses e Ancestrais, tirar nossas dúvidas, auferir ensinamentos,
usufruir do diálogo sagrado dentro dos nossos rituais. Sugerimos então
aos Sacerdotes que usem e abusem deste benefício que Orisa nos enviou,
e aprendam de volta tudo que não veio, tudo que não chegou, tudo
que se perdeu por este Oceano Atlântico, junto com lágrimas e sangue.
E, em último caso, lembremos que religião é tradição,
e que tradição é invenção, um inventar doce
e lento, um inventar sagrado, um descobrir formas de chegar aos Orisa. Temos
uma religião completa, de sete mil anos de existência. Se, por
um desastre, que foi a escravidão, nos separamos dos mais velhos e mais
sábios, conservamos ainda os Orisa e seu poder de se manifestar, falar
e ensinar. Não somos nem estamos órfãos, no Brasil existem
antigas estirpes que se enraizaram em centenários Templos de culto aos
Orisa e se mantém vivas e fortes, prontas a repassar axé e conhecimento
a todos os seus descendentes.
África é logo ali, seus braços estão abertos a todos
nós, a sabedoria está presente em cada velha cabeça dos
Babalawo, sacerdotes do Orisa Orunmila, pais do segredo, cada cabeça
um mar de histórias, uma biblioteca viva de sangue, nervos e músculos,
que nossos livros são vivos e falam, nossa religião é dinâmica
e não sobrevive de forma parada, extática e repetitiva, como querem
alguns. Nossa tradição foi, é, e sempre será oral,
independente do número de livros e escritos que possam existir a nosso
respeito. Nossas "escrituras" são orais, originárias
de cabeças e memórias sempre vivas e prontas a serem acionadas.
E o culto não morreu na África, como desejam e pregam alguns desavisados,
professores e homens ditos de saber entre eles, só porque veio para o
Brasil. Orisa e todos os Deuses e Ancestrais africanos vivem em cada cidade
onde existe um devoto, em grandes Templos seculares, em pequenos Templos familiares
e tribais. O africano, antes de ser qualquer coisa, é africano. Nossa
religião é forte em terra yorùbá, em terra ewe fon,
em terra bantu. Na África, a terra, a rua pertencem ao Orisa, ao Nkise,
ao Vodun, coisa que não acontece no Brasil. Aqui, pela colonização
e pela necessidade da aceitação social da religião, a terra,
a rua, a praça são da procissão, do santo católico,
da bíblia.
Peçamos, pois, ao brasileiro afro descendente, praticante do Candomblé,
que exija de seus Sacerdotes o que a religião lhe faculta. O direito
de receber os sacramentos da sua opção religiosa, do caminho que
escolheu para levá-lo a Deus. O direito ao conhecimento religioso, à
verdade religiosa, à religião sem misturas e sem mentiras. E que
antes de ser brasileiro, já que não é mais africano, seja
negro demais no coração.
AXÉ, AXÉ, AXÉ!